domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pode um fracasso ser divertido?

Desde o ano passado venho me dedicando a melhorar minha escalada e a ter mais foco na minha vida, tentando sempre me manter em movimento e buscando a harmonia entre o corpo e a mente. Uma das atividades que para mim consegue reunir equilíbrio, meditação e foco é o slackline.

Assim como o malabares, quando comecei tive dificuldades, porém com a persistência posso dizer que hj ando com certa facilidade. Minha motivação com o slack não é algo recente e tenho buscado tornar essa uma prática de meditação minha, pratico diariamente, preferencialmente sozinho e em locais sem muito público curioso. Como moro em uma cidade, procuro me esconder em uma área verde próxima a minha casa, mas a proximidade com a rodovia torna as buzinas, gritos e afins um desafio a mais para a concentração, nessas horas só o som alto para ajudar.

Sábado após um belo dia de slack a beira do Lago Paranoá retornei para casa certo de que tava na hora de tentar algo diferente e parar de adiar meus projetos, por mais simples que eles sejam. Chega de ficar especulando e argumentando que preciso de mais equipamentos, ou outros entraves que criamos para bloquear os sonhos.

 Dentre minhas vontades estava praticar o slackline no Poço Azul, buscando agregar o elemento altura e água ao slackline. Já tarde da noite entrei no gtalk, vi o Fera online e decidi que ele seria um bom parceiro para ir comigo, naquele esquema sem bonde, sem muita conversa, só pelo prazer de conhecer um novo lugar ou um velho lugar com um novo olhar. Fera é um brother com uma vibe massa, que sabe valorizar a sutileza das coisas boas da vida e ele prontamente topou.

Saímos de casa às 7:00h e após 64km sendo cerca de 30km de estrada de chão enlameada e esburacada chegamos as 8:30h no poço e já havia gente, e muito lixo o que demonstra os problemas da proximidade de um paraíso desses e a falta de consciência dos frequentadores. Buscamos agilizar o processo de armação do slack, iniciando por uma medição da altura e da largura utilizando um rolo de barbante marcado de metro em metro.

Chegamos a medição de 4 metros de altura de queda e 8 metros de travessia na fita. A chapeleta previamente colocada no local estava completamente solta e quando encostei para aperta-lá com uma chave 14 ela simplesmente caiu no poço, como se o parabolt tivesse sido cortado. Ainda tentei laçar bicos de pedra e armar sem proteção fixa, mas na outra margem percebi um parabolt fixado, porém sem chapeleta. Acabei assim desistindo em nome da segurança.

É claro que foi frustante, o sol tava perfeito e eu já havia feito tanto por isso, e nem mesmo dormi a noite pensando em como seria. Mas decidi que ia curtir mais aquele local. Saltei das pedras experimentando a sensação do que seria a queda da altura do slack, estudei as margens e vi novas possibilidades de proteção para o slack. Fora isso, saquei a sapatilha snake moída pelo tempo e dentro da gruta do poço iniciei minha primeira escalada caindo na água (acho psicoblock um nome meio estranho e muito pretencioso).

Cheguei a subir cerca de 3 metros por uma fenda em oposição e com entalamento de joelho, nada muito difícil, mas a continuidade era em buracos e regletes difíceis para a mão molhada e cada queda exigia natação até a base e todo esforço de novo. Escalei assim por cerca de 1h, entre descansos e entradas minhas e do Fera que também botou pra jogo descalço e com a sapata. Foi uma escalada de descoberta, de cada agarra, do medo dos buracos onde andorinhas e aranhas dormem, mas foi simplesmente incrível. Cheguei a tentar um movimento dinâmico e voar inesperadamente de cara na água e posso dizer cair na água dói mais é engraçado demais.

Meio dia retornamos pra casa após 4h de muita diversão. A frustação do slack não resolvido deu lugar a uma fome de cachoeira, aos calos lixados pela pedra e pela água e a certeza de que o importante é se aproveitar o que se tem e projetar melhor o que se quer viver. A cada dia que passa sinto-me mais agraciado por estas pequenas coisas.

Já no caminho pra casa, em meio a estrada de chão e fazendas dei carona a um andarilho com uma cargueira que estava desde sexta feira acampando pelo cerrado e caminhando em trilhas, ou seja mais uma vez  destino operou e mais um maluco concluiu sua aventura.

Final do dia e eu fico me perguntando se realmente é importante relatar esses acontecimentos, se o simples prazer de ter essas memórias vivas comigo não é o suficiente. Chego a uma pequena conclusão de que escrever essas coisas é minha forma de fotografar minhas vivências, e que faço isso para agradecer a vida por essa e por outras oportunidades.

Ass: Esdras

2 comentários:

Grazi disse...

Dia após dia, com leveza e foco ;)

sim, é importante relatar!

:*

Fernando disse...

Grande domingão!
Muito bom, mesmo!
Pô... Moro aqui em Brasília desde que nasci e nunca tinha ido lá no Poço Azul... Não fosse pelo lixo, o lugar seria perfeito!
Mas a vibe foi muito boa, mesmo com o lance "furado" do slack...
Lugarzão pra quem curte uma escapada desse 'frenesi' da cidade, mas tá com tempo e/ou grana curta, pq o lugar é pertinho ;D

Valeu, irmãozão!

Ass.: Fera