segunda-feira, 21 de março de 2011

Missão Chaminé Gallotti 18.03.2011

Desde janeiro o plano de escalar a Chaminé Gallotti tomou conta da minha cabeça. Para quem não conhece a história desta mitológica linha cabe saber que ela foi a 4ª via conquistada no Pão de Açucar, no período de 1949 a 1954, com muito esforço e coragem por Antônio de Oliveira, Ricardo Menescal, Laércio Martins, Patrick White e Tadeusz Hollup, todos membros do Clube Excursionista Carioca - CEC. Um dos mistérios que permeia essa linha é o fato dos conquistadores terem se deparado com um cadáver mumificado que se encontrava preso pelo pescoço no trecho referente à segunda cordada da via. Quem quiser saber mais dessa história deixo no final do texto os links e recomendo assistir aos filmes.

Foram quase 3 meses de alimentação regrada, de corridas diárias, slack line e treinos de resistência para que eu pudesse me sentir apto físico e mentalmente para encarar essa via, pois como já falei antes aqui não sou um cara muito forte e não tenho grande preparo físico o que venho lutando diariamente para mudar.

Para mim, escalador brasiliense com grande afeição por boulders, essa via tornou-se um projeto extremamente desafiador por dois simples motivos. Primeiro por que nunca em toda minha vida eu havia escalado algo superior a 150 m de altura, não que eu tenha medo de altura, mas a extensão de uma via diz muito sobre a resistência física e psicológica para realizá-la. Segundo porque eu nunca havia escalado, treinado ou aprendido a técnica de escalada em chaminés e teria que enfrentá-las durante toda a via.

Enfim, era um desafio enorme e para topar realizá-lo somente alguém com tão pouco juízo e muita pilha como eu, mas com grande conhecimento e técnica em escalada, ou seja, Leandro Cardoso. Leandro e Grazi (casal 2nocume) são os grandes responsáveis pela minha atração pela escalada tradicional (se é que esse nome cai bem), sempre me incentivando a retornar ao Rio de Janeiro para me dedicar a outro estilo de escalada que não seja boulder hehehe.

Minha ida para o Rio de Janeiro foi adiada na quinta feira devido às tempestades que alagaram Brasília tornando impossível decolar. Sexta-feira pela manhã parti para o Rio de Janeiro onde encontraria com Grazi e Leandro e ficaria esperando por Patricia, Monique e Dani que chegavam com destino à Invasão Feminina 2011, evento que será melhor abordado em um relato específico. Chopinho de boas vindas muita conversa no bar e algumas horas jogando UFC no Playstation 3 do Leandro onde nos dedicamos ao aquecimento dos dedos para a empreitada.

Sábado 8h da manhã, a Urca estava tomada por camisetas roxas do evento Invasão Feminina, incluindo eu (Esdras) que vesti a camisa em apoio ao evento. Fomos guiados pela trilha íngreme até a base da via por Rodrigo, escalador carioca e grande amigo que tentou nos alertar para o desafio à nossa frente. As descrições de Rodrigo eram ótimas e estimuladoras como extremamente suja, estreita, difícil e pra finalizar a tradicional frase: - Essa via é um quinto grau, mas é um quinto grau de chaminé. Melhor que isso foi a cara e a risada dele quando eu disse que nunca havia feito uma chaminé na vida. Mas nada disso abalou a idéia de escalar aquela via, pelo contrário, me senti ainda mais estimulado pela roubada que se apresentava.

Iniciamos a escalada por uma canaleta extremamente suja, cheia de mato e terra e assim foi até a segunda parada, alternando trechos de canaleta, aderência com boas agarras que não assustou. Leandro seguiu guiando para a terceira enfiada onde se iniciam os lances de chaminé. Na seg, eu mantinha a cabeça pensando positivamente, lembrando de como deve ter sido insano para os conquistadores realizarem aquela escalada. A comunicação com Leandro já não existia e passei a dar segurança cega, o que causa bastante ansiedade. Relaxei e Leandro recolheu a corda permitindo que eu iniciasse a escalada. Confesso que o primeiro momento de chaminé é bem intuitivo (pelo menos para mim), porém lidar com o estreitamento torna a tarefa realmente assustadora ainda mais se você tenta fazer isso com a mochila nas costas. Após ficar entalado, desloquei a mochila e pendurei na solteira, o que tornou menos problemático o lance. Entrei em uma espécie de escada estreita e segui a chaminé sob a orientação do Leandro que descreveu bem o final desse trecho: - Isso aqui pareceu um parto.

A via continuou alternando lances com agarras até um platô um tanto assustador por ser macio e cheio de plantas (o Leandro derrubou parte dele quando pisou provocando uma avalanche de terra hehehe). Leandro seguiu para mais um trecho de chaminé que passava por uma enorme pedra entalada. Essa cordada foi ainda mais forte para o psicológico, pois na seg eu não tinha notícias de Leandro e a corda passou muitos minutos parada me levando a recolher e a permanecer ali, a mais de 100m de altura admirando a paisagem e atento ao freio. Leandro deu sinais na corda e seguiu e de repente começou a ser recolhida.


Chegamos enfim no chamado “Lance do Estribo”, um artificial que rapidamente foi superado por Leandro. Porém, no momento de limpar o segundo estribo, a peça estava extremamente presa e eu ficara preso pela cadeirinha ao pequeno platô. Após literalmente ralar o umbigo, consegui recuperar o estribo e a peça e subir no platô com o coração na boca de tanto fazer força e de tanto medo de cair. Detalhe, eu também nunca havia escalado em artificial.

Já no platô que fica interno à chaminé cuja ancoragem é em um bico de pedra nos deparamos com o trecho mais complicado da escalada. Uma chaminé anterior a conhecida como Chaminé da Gia (chegamos a conclusão depois que deveria se chamar o cú da gia) que possui um estreitamento (tetinho) no qual a proteção deve se localizar a uns 10 metros do Platô. Após o descanso e um pequeno registro em filme Leandro tentou o lance um pouco pela esquerda evitando o temido estreitamento, porém percebeu a dificuldade e tentou desescalar devido às câimbras nos braços. De repente Leandro cai a cerca de 4 metros acima de mim e vem até o platô onde eu estava ancorado (lembrem-se no bico de pedra) ,após me chutar ele cai sentado no platô sem bater os pés e amortecido pelas mochilas. Abaixo de nós havia pelo menos 30 metros de chaminé.

Demoramos bons minutos nos recuperando do susto e das possibilidades que aquela queda significava. Leandro, porém demonstrou controle, inverteu o sentido que estava escalando, se alinhou na direção do distante “P” e tocou os dez metros de chaminé desprotegida. Chegando lá em cima notei que ele hesitou e passei a incentivá-lo até a costurada, mas tremendo de medo. Confesso que nunca fiquei tão feliz em ouvir um som de mosquetão como naquele momento. Leandro tocou a escalada pelo lance por mais duas costuras até o platô da árvore.

Nesse momento pensei em desistir da escalada, mas após ver a coragem de Leandro enfrentando aquele lance decidi que ia até o final a todo custo. Por incrível que pareça, escalei calmo e superei o lance até o “P”, porém na sequência da chaminé extremamente estreita, não conseguia realizar o movimento de saída, pois não era possível sequer girar a cabeça, fui seguindo os betas do Leandro e tive que me pendurar na corda para conseguir virar o rosto e dar fim ao martírio.

Após todo perrengue os últimos lances pareciam um passeio na floresta, onde a escalada se alternava com cipós e troncos de árvores. Final desse lance, segundo o croqui deveríamos seguir cerca de 50 metros até encontrar a trilha. Porém nos deparamos com as duas cordas extremamente emboladas e com uma mata fechada à frente.

Após a tentativa frustrada de desenrolar as cordas, decidimos seguir com o bolo de cordas na mão e por algo que parecia a trilha. Fui a frente do Leandro (único trecho que guiei hehehe) rompendo o bambuzal no peito e extremamente irritado por culpa de cipós que me enforcavam a todo momento. Chegamos enfim no calçamento da estação do bondinho do Pão de Açúcar, após 6 horas de escalada, extremamente sujos e com muita sede, mas com a alegria de ter realizado uma grande escalada. No cume podemos compreender o que o Guia da Urca quis dizer com a frase. “Uma verdadeira escalada de aventura”.

Ficamos tão exaustos que o restante do fim de semana foi dedicado a alimentação,descanso e cuidados com os diversos ferimentos da batalha. O relato não contou com fotos por uma simples razão, fiquei com medo de derrubar o celular lá de cima e o tremor nas mãos(adrena) não permitia que as fotos ficassem descentes, por isso optei por filmar. Se quiser ouvir o Leandro falando aumenta bem o som porque o celular não pegou bem kkkkk

Vídeo 1


Vídeo 2


Vídeo 3



Links sobre a gallotti
http://www.mundovertical.com/utilidades/mumia.htm
http://www.companhiadaescalada.com.br/croquis/croquis-fator2/cr35.jpg
http://www.montanhar.com.br/filme_gallotti.html
http://www.youtube.com/watch?v=pADFsVAzXDQ

8 comentários:

Rodolfo disse...

Parabéns aos dois pela missão cumprida.

Alvaro Alvares disse...

Melhor é a cara do Leandro no "Vídeo 3"!

Roger disse...

Não vi os vídeos ainda, mas parabés leke. Sem menosprezar as outras modalidades lógico, mas agora você foi batizado irmão, " tá no clube" hehehe.
Parabéns Esdras e Leandro.
Irado.

Leandertal disse...

Valeu Esdras pela parceria, mandou muito bem e não reclamou hora nenhuma! Agora vamos para o próximo projeto ... só o cume interessa!!! .. rs

Abraço
Leandro

Thiago Oliveira disse...

Saiu com o Leandro e voltou com os joelhos ralados e dores nas costas? Sei não, hein? Se bem que os vídeos ajudam na desculpa.

Abraços,
Thiago

Alvaro Alvares disse...

KKKKK!

Rafael Matheus disse...

Parabéns Esdras, a via parece incrível mesmo!

Rafael Matheus disse...

Parabéns Esdras, a via para incrível mesmo. Só a história da múmia já faz dela um clássico!